O grão que mudou o prato do brasileiro completa seis décadas de história

Criado a partir de uma observação em lavouras do interior de São Paulo, o feijão carioca responde hoje por cerca de 60% do consumo nacional
10/02/2026 às 16h19
 - Atualizado há 7 meses
Feijão

Presente quase diariamente na mesa dos brasileiros, o feijão carioca completa, em 2026, 60 anos desde o início de seu desenvolvimento científico. Responsável por cerca de 60% do consumo nacional, o grão é resultado direto da pesquisa pública paulista e se consolidou como um dos maiores símbolos da segurança alimentar no país.

A história começa no início da década de 1960, em Ibirarema, no oeste do estado de São Paulo. Em uma plantação de feijão chumbinho, variedade comum na época, o engenheiro agrônomo Waldimir Coronado Antunes percebeu algo diferente: plantas com grãos rajados, de manchas marrons e pretas sobre fundo claro. A curiosidade virou pesquisa. Antunes separou aquele material, acreditando tratar-se de uma mutação genética natural e estava certo.

As plantas apresentavam vigor superior, maior produtividade, resistência a doenças e excelente qualidade culinária, com cozimento rápido, caldo encorpado e sabor marcante. O potencial era evidente.

O marco oficial dessa descoberta ocorreu em 1º de agosto de 1966, quando um lote de 30 quilos de sementes foi enviado ao Instituto Agronômico (IAC), em Campinas. Catalogado como I-38700, o material passou a integrar a coleção de germoplasma do Instituto e deu início a uma série de estudos conduzidos por pesquisadores como Luiz D’Artagnan de Almeida, Shiro Miyasaka e Hermógenes Freitas Leitão Filho.

Ensaios realizados entre 1967 e 1969 confirmaram a superioridade da nova variedade. A produtividade média chegava a 1.670 quilos por hectare, bem acima das cultivares tradicionais da época. Em 1969, o feijão foi lançado oficialmente.

O nome “carioca”, apesar de popular, não tem relação com o Rio de Janeiro. A denominação surgiu de forma informal, quando um trabalhador rural comparou o padrão rajado dos grãos à pelagem de porcos crioulos conhecidos como “cariocas”. A origem só foi registrada oficialmente no ano 2000, em publicação comemorativa da CATI.

A aceitação do novo feijão, no entanto, não foi imediata. Acostumados a grãos de coloração uniforme, consumidores estranharam o aspecto manchado. Coube aos pesquisadores do IAC e aos técnicos da CATI liderar um amplo trabalho de divulgação, com palestras, campos de demonstração, distribuição de sementes e até receitas culinárias. O esforço deu resultado.

Em menos de uma década, o feijão carioca se tornou a variedade mais plantada em São Paulo. Nos anos seguintes, conquistou praticamente todo o território nacional, transformando-se em base da modernização da cultura do feijão no Brasil.

Considerado o “pai do carioquinha”, o pesquisador Luiz D’Artagnan de Almeida, falecido no início de 2026, deixou um legado que ultrapassa a criação de uma cultivar. Seu trabalho estruturou o programa brasileiro de melhoramento genético do feijão, que segue ativo até hoje no Instituto Agronômico.

Ao longo de seis décadas, o feijão carioca passou por inúmeras evoluções. Mais de 60 variedades foram desenvolvidas a partir do material original, com melhorias em resistência a doenças, precocidade, qualidade nutricional, tolerância ao escurecimento dos grãos e menor necessidade de insumos agrícolas. Atualmente, cultivares do IAC estão presentes em mais de 13 estados e ocupam cerca de 60% das lavouras de feijão do país.

Apesar da relevância histórica e nutricional, o consumo de feijão no Brasil enfrenta queda. Segundo a Embrapa, o consumo per capita, que chegou a quase 23 quilos por pessoa ao ano nos anos 1960, atingiu em 2024 o menor nível da série histórica. Mudanças nos hábitos alimentares, rotina urbana e redução do preparo de refeições em casa ajudam a explicar o cenário.

Para o pesquisador Alisson Fernando Chiorato, do IAC, o desafio é duplo: manter a produção sustentável e estimular o consumo. “Com mais tecnologia e maior oferta, se o consumo não acompanhar, há pressão sobre os preços pagos ao agricultor”, afirma.

Diante disso, o programa de melhoramento passou a investir também na diversificação de tipos de feijão, como vermelhos, brancos e rajados, além de materiais voltados ao mercado externo. Ao mesmo tempo, novas cultivares cozinham mais rápido, consomem menos água no campo e exigem menos agroquímicos. “O feijão é uma das proteínas vegetais mais completas e acessíveis que existem”, reforça o pesquisador Sérgio Augusto Morais Carbonell, do IAC. “Valorizar sua qualidade e versatilidade é essencial não só para o campo, mas também para a saúde pública.”

Sessenta anos depois, o feijão carioca segue como prova concreta de que ciência pública, observação e persistência podem transformar a agricultura  e garantir alimento no prato de milhões de brasileiros.

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