Falha comunicada em Ribeirão Preto não foi registrada antes da tragédia que matou 62 pessoas

Documento do Cenipa identifica falhas no sistema de degelo, ausência de registros técnicos e fatores humanos que contribuíram para o acidente
27/07/2026 às 09h46
 - Atualizado há 8 horas
Foto: Divulgação

O relatório final sobre a queda do avião da Voepass, divulgado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), trouxe novos detalhes sobre a tragédia que matou 62 pessoas em Vinhedo, em agosto de 2024. O documento aponta que problemas registrados em voos anteriores, incluindo operações com passagem por Ribeirão Preto, não foram formalmente comunicados à manutenção, o que impediu a adoção de medidas que poderiam aumentar a segurança da aeronave antes da decolagem do voo fatal entre Cascavel e Guarulhos.

Segundo o Cenipa, a aeronave apresentou falhas no sistema de degelo nos três voos anteriores ao acidente. Em um deles, que chegou a Ribeirão Preto na madrugada anterior à tragédia, pilotos relataram verbalmente uma pane no equipamento responsável por remover o gelo das asas e de outras partes do avião. No entanto, o problema não foi registrado no diário técnico da aeronave, documento obrigatório para que a manutenção possa realizar verificações e reparos. A ausência desses registros se repetiu nos voos seguintes, mesmo após novos alertas de falha e perda de desempenho da aeronave.

A apuração também concluiu que, durante o voo do acidente, a tripulação enfrentava uma elevada carga de trabalho por causa das condições meteorológicas e do acúmulo de gelo. O Cenipa explica que fatores humanos, como a chamada “cegueira por desatenção” e a “surdez por desatenção”, podem ter reduzido a capacidade dos pilotos de perceber e interpretar alertas visuais e sonoros emitidos pela aeronave. O órgão ressalta, porém, que esses fenômenos não foram a causa direta da queda, mas ajudam a explicar por que avisos importantes podem passar despercebidos em situações de extrema pressão.

O relatório tem caráter exclusivamente preventivo e não atribui responsabilidades civis ou criminais. Entre as recomendações estão o fortalecimento dos treinamentos sobre fatores humanos, melhorias nos sistemas de alerta das aeronaves e o incentivo a uma cultura de segurança mais rigorosa. Em nota, a Voepass afirmou que sempre adotou padrões elevados de segurança, destacou a experiência da tripulação e informou que continua colaborando com as autoridades desde o início das investigações.

As apurações sobre o caso, no entanto, seguem avançando. Neste domingo, 27, o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Tiago Faierstein, afirmou que a Voepass apresentou documentos e informações falsas durante fiscalizações, levando a agência a acreditar que problemas de manutenção haviam sido corrigidos quando, na realidade, os reparos não teriam sido realizados. Segundo ele, essas informações influenciaram as decisões da fiscalização antes do acidente e reforçam a necessidade de aprofundar a investigação sobre os procedimentos adotados pela companhia.

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