
Do interior aos grandes palcos: artistas de Franca levam teatro-dança autoral para circuito nacional

Por trás de corpos em cena, há uma história de resistência, criação e pertencimento. É assim que a Cia. Entre Nós, coletivo artístico formado por intérpretes de Franca, vem conquistando espaço no cenário nacional com o espetáculo “NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA”. A obra, que une dança e teatro, ultrapassa fronteiras geográficas e simbólicas ao transformar experiências do interior em uma linguagem potente e universal.
Criada em 2015 pela bailarina Daniela Rosa e pelo ator Rafael Bougleux, a companhia nasceu do encontro entre duas trajetórias distintas, mas complementares. Desde então, constrói uma pesquisa cênica que explora o corpo como linguagem e território de reflexão social.
O ponto de partida foi justamente o espetáculo que hoje ganha o país. A montagem, contemplada inicialmente pelo ProAC, surgiu como uma investigação sensível sobre a violência contra a mulher, tema que, mais de uma década depois, segue urgente.
Do interior para o Brasil
Se antes a circulação se concentrava em cidades do interior paulista, hoje o trabalho alcança novos públicos e ganha projeção nacional. Um dos momentos mais simbólicos dessa trajetória é a temporada em Centro Cultural Banco do Brasil Brasília, um dos espaços culturais mais relevantes do país.
Para o grupo, ocupar esse palco vai além da apresentação artística. É reconhecimento. É afirmação. “Levar esse trabalho para Brasília é o coroamento de uma trajetória construída com muita persistência. É mostrar que a arte feita no interior tem potência para dialogar em qualquer lugar”, destaca Rafael Bougleux.
A circulação nacional inclui ainda passagens previstas por capitais como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, ampliando o alcance de uma obra que nasceu em território francano, mas fala com o país inteiro.
A força de uma obra que atravessa o tempo
Com duração de 60 minutos e classificação indicativa de 16 anos, o espetáculo propõe uma experiência sensorial e reflexiva. Em cena, um casal atravessa tensões, afetos e conflitos enquanto investiga, por meio do corpo, os limites de uma relação marcada por violências, muitas vezes invisíveis.
Livremente inspirado em casos reais e em referências como Suzanne Lacy, Nan Goldin e Nina Simone, o espetáculo não busca respostas fáceis. Ao contrário: convida o público a testemunhar, sentir e refletir. “A obra não quer ensinar, mas provocar. Fazer ver aquilo que muitas vezes é silenciado”, afirma Bougleux.
A encenação aposta na fusão entre dança, teatro e música ao vivo, criando uma dramaturgia que rompe com a linearidade tradicional. O corpo, aqui, não é apenas instrumento, é discurso.
Arte que nasce da vivência
Muito do que está em cena nasce da experiência dos próprios artistas. Criar a partir do interior, segundo a companhia, não é limitação, mas ponto de partida. “Falamos do nosso território, mas com questões que são universais. O que muda é o olhar”, explica Daniela Rosa.
Essa identidade atravessa tanto a estética quanto o processo criativo. Sem sede fixa e enfrentando desafios estruturais comuns a grupos fora dos grandes centros, a companhia construiu sua trajetória com base em parcerias, editais e, principalmente, persistência.
Ensaios em casa, adaptações de espaço e a necessidade de conciliar a arte com outras profissões fazem parte do cotidiano, uma realidade que, longe de enfraquecer o trabalho, fortalece sua autenticidade.
Por onde já passou
- Circulação inicial por cidades do interior paulista como Franca, Batatais, Brodowski e Cristais Paulista
- Participação no Festival Nacional de Teatro de Ribeirão Preto (2017)
- Nova circulação em 10 cidades com foco em debates sobre violência contra a mulher
- Integração em projetos como SESI Viagem Teatral e Território SESI
- Participação em festivais internacionais na Colômbia (2021)
- Temporada atual em Brasília e circulação prevista por capitais brasileiras via edital nacional do CCBB
Mais do que espetáculo, um posicionamento
Ao longo de 10 anos, a obra se mantém viva, um feito raro nas artes cênicas. E talvez esse seja seu maior mérito: continuar necessária.
Para os artistas, o objetivo não é oferecer respostas, mas provocar deslocamentos. “Se o público sai inquieto, já cumprimos nosso papel”, resume Bougleux.
Em tempos de urgências sociais, a Cia. Entre Nós reafirma o poder da arte como espaço de tensão, escuta e reflexão, mostrando que, mesmo longe dos grandes centros, é possível criar obras que ecoam por todo o país.
Ficha técnica e trajetória
Espetáculo: NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA
Criação: 2015 (Edital ProAC nº 06/2015)
Duração: 60 minutos
Classificação: 16 anos
Criação, atuação e coreografias: Daniela Rosa e Rafael Bougleux
Direção e direção de arte: Fernando Gimenes
Preparação corporal: Gisela Durval
Direção musical e arranjos: Larie
Elenco: Renata Prado
Música: Wendel Dima
Iluminação: Gabriel Faleiros
Assistência de iluminação: Luís Eduardo Faleiros
Produção: Marcela Marcucci e Rebeca Amorim
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