Medicamento para diabetes abre novo caminho no combate à apneia do sono

Aprovação da Anvisa amplia perspectivas de tratamento para pessoas com obesidade e distúrbios do sono no Brasil
02/02/2026 às 13h54
 - Atualizado há 6 meses

A aprovação do medicamento Mounjaro, à base de tirzepatida, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) marcou um novo capítulo no tratamento da apneia obstrutiva do sono (AOS) associada à obesidade. A decisão reforça a relação direta entre excesso de peso e o distúrbio respiratório e amplia as possibilidades terapêuticas para milhares de pacientes que convivem com noites mal dormidas e riscos à saúde.

A apneia do sono é caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante o sono, comprometendo a oxigenação do organismo e aumentando o risco de doenças cardiovasculares, metabólicas e cognitivas. Um dos principais fatores de risco é a obesidade, já que o acúmulo de gordura no pescoço e nas vias aéreas favorece o colapso respiratório durante o descanso.

Segundo a otorrinolaringologista Dra. Roberta Pilla, a perda de peso é um dos pilares no controle da apneia. “A redução da gordura ao redor do pescoço e das vias aéreas superiores diminui o colapso dessas estruturas durante o sono. Em muitos casos, uma perda de 10% a 15% do peso corporal já promove melhora significativa dos sintomas”, explica.

Essa relação também é destacada pela endocrinologista e metabologista Dra. Tassiane Alvarenga, que chama atenção para a alta correlação entre as duas condições. “Cerca de 40% das pessoas com obesidade apresentam apneia do sono, e aproximadamente 70% dos pacientes com apneia são obesos. Por isso, pensar em tratamentos integrados faz todo sentido”, afirma.

A tirzepatida atua no controle do apetite e no metabolismo, favorecendo a redução de peso corporal, o que pode aliviar a gravidade da apneia em parte dos pacientes. No entanto, especialistas alertam que o medicamento não substitui tratamentos específicos, como o uso do CPAP, nem dispensa avaliação médica criteriosa.

Com a chegada do verão e o aumento da procura por soluções rápidas para emagrecimento, o chamado “projeto verão”, cresce também o interesse por medicamentos à base de tirzepatida. Para a educadora física e pesquisadora científica da Biologix, Sara Giampá, é preciso cautela. “O emagrecimento pode ajudar a reduzir a gravidade da apneia em alguns casos, mas isso não significa que o medicamento trate diretamente o distúrbio. Ele deve ser visto como um aliado dentro de um plano terapêutico amplo”, ressalta.

Ela alerta ainda para os riscos do uso indiscriminado com fins apenas estéticos. “A apneia do sono é uma condição séria, associada a diversas doenças. O foco precisa ser a saúde do sono como um todo, não apenas a balança”, pontua.

Especialistas reforçam que o tratamento mais eficaz envolve abordagens combinadas, que incluem acompanhamento médico, mudanças alimentares, prática regular de atividade física, suporte psicológico e, quando indicado, terapias específicas para o sono. Além disso, nem toda pessoa com apneia é obesa, assim como nem todo paciente que emagrece deixa de apresentar o distúrbio. “O diagnóstico correto, com exames como a polissonografia, e o acompanhamento contínuo são indispensáveis. Medicamentos podem ter seu papel, mas não são soluções milagrosas”, conclui Sara.

A aprovação da tirzepatida, portanto, representa um avanço relevante, mas reforça a necessidade de uma visão integrada e responsável no cuidado com a obesidade e os distúrbios do sono, abrindo novos horizontes para tratamentos mais eficazes e personalizados.

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