PF Indicia Bruno Henrique por suspeita de manipulação no Brasileirão 2023

Jogador do Flamengo teria planejado cartão para favorecer parentes apostadores
16/04/2025 às 16h17
 - Atualizado há 1 ano
Um jogador de futebol celebra uma vitória em meio a uma forte chuva. A composição da imagem apresenta um jogador de futebol em primeiro plano, com os braços erguidos em celebração. A forte chuva é um elemento visual marcante, dando uma atmosfera de intensidade e emoção ao momento. O foco principal é o jogador, e o fundo desfocado sugere um estádio lotado, embora não seja possível ver claramente os outros jogadores ou torcedores. O jogador parece estar em um momento de grande alegria e satisfação.
📸 Gilvan de Souza-CRF

A Polícia Federal (PF) indiciou o jogador Bruno Henrique, atacante do Flamengo, por supostamente ter forçado um cartão amarelo durante um jogo contra o Santos, no Campeonato Brasileiro de 2023, com a intenção de beneficiar apostas de Wander Nunes Pinto Júnior, irmão do jogador, Ludymilla Araújo Lima, esposa de Wander, e Poliana Ester Nunes Cardoso, prima do jogador. Os três também foram indiciados no processo.

Segundo as investigações, o jogador teria forçado deliberadamente um cartão amarelo na partida contra o Santos, no dia 1º de novembro, em Brasília, visando beneficiar apostadores ligados a ele.

A investigação se apoia em mensagens de celular, registros de apostas, movimentações financeiras e o próprio comportamento de Bruno Henrique em campo. A PF sustenta que houve uma articulação para manipular o jogo, envolvendo familiares do atleta e um grupo de amigos do irmão dele, Wander Nunes Pinto Júnior, também indiciado.

📸 Reprodução/Redes Sociais

As apurações começaram em agosto do ano passado, após três casas de apostas identificarem um comportamento atípico nas plataformas. Quase todas as apostas feitas para o jogo entre Santos e Flamengo se concentraram em um único evento: o cartão amarelo para Bruno Henrique. Em uma das casas, 98% das apostas nessa categoria estavam voltadas exclusivamente para o atacante. Em outra, o índice foi de 95%.

Esse tipo de concentração é incomum e representa um forte indício de informação privilegiada ou manipulação. As casas acionaram os órgãos competentes e o caso chegou à Polícia Federal.

As mensagens que revelam o plano

Com autorização judicial, a PF realizou uma operação de busca e apreensão em novembro de 2023. Os agentes recolheram celulares, inclusive no Centro de Treinamento do Flamengo e na casa do jogador. O material revelou trocas de mensagens que, segundo a polícia, evidenciam o planejamento para que Bruno Henrique forçasse o cartão.

📸 Reprodução

Em uma conversa, dias antes da partida, o irmão do atacante pergunta:

— “Quando (o) pessoal mandar tomar o 3, liga nós hein kkkk”.
— Bruno Henrique responde: “Contra o Santos”.
— Wander comemora: “Boa, já vou guardar o dinheiro, investimento com sucesso”.

Em outra troca, no dia 31 de outubro, véspera do jogo, Bruno Henrique envia:

— “Aí, lembra a parada que você me perguntou uns tempos atrás”.

Logo depois, os dois fazem uma ligação telefônica, cujo conteúdo não foi interceptado, mas que reforça a suspeita de que se tratava da execução do plano.

Na partida, Bruno Henrique entrou em campo pendurado com dois cartões amarelos. Já nos acréscimos do segundo tempo, com o Flamengo perdendo por 2 a 1, ele cometeu uma falta em Soteldo e foi advertido. Na sequência, reclamou com veemência com o árbitro Rafael Klein e acabou expulso.

Um árbitro de futebol mostra um cartão amarelo a um jogador.A cena mostra um árbitro de futebol usando uma camisa amarela, em pé no meio do campo, com dois jogadores de camisa vermelha e preta, próximos a ele. O árbitro está segurando um cartão amarelo na mão direita. Os jogadores têm expressões sérias e parecem estar em uma discussão com o árbitro. O campo é verde e parece estar em um estádio de futebol.
📸 Reprodução/CBF

Estrutura do suposto esquema

A Polícia Federal dividiu os investigados em dois núcleos distintos:

  1. Núcleo familiar de Bruno Henrique:
    • Wander Nunes Pinto Júnior (irmão do jogador)
    • Ludymilla Araújo Lima (esposa de Wander)
    • Poliana Ester Nunes Cardoso (prima)
  2. Núcleo de amigos do irmão:
    • Claudinei Vitor Mosquete Bassan
    • Rafaela Cristina Elias Bassan (esposa de Claudinei)
    • Henrique Mosquete do Nascimento (irmão de Claudinei)
    • Douglas Ribeiro Pina Barcelos
    • Max Evangelista Amorim
    • Andryl Sales Nascimento dos Reis

As mensagens revelam que Wander mantinha contato direto com Claudinei, articulando apostas e comentando os desdobramentos após o jogo. O grupo comemorou a aplicação do cartão, mas logo demonstrou preocupação ao perceber que a casa de apostas bloqueou os pagamentos, alegando suspeita de fraude.

📸 Reprodução

Em uma conversa posterior, Wander relata que apostou R$ 3 mil para ganhar R$ 12 mil, mas não recebeu o prêmio:

“Coloquei 3 pra ganhar 12 e eles bloquearam por suspeita. O dinheiro tá todo preso”.

O prejuízo das casas e o lucro dos apostadores

Ao todo, o inquérito identificou 14 apostas realizadas pelos investigados em três casas diferentes. Foram apostados R$ 5.642,58, com um retorno de R$ 17.007,01 — gerando um lucro de R$ 11.364,43.

Apesar do ganho relativamente baixo, o caso é tratado pelas autoridades. O STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), que chegou a ser acionado em 2023, arquivou a denúncia à época sob o argumento de que o lucro era “ínfimo” perto do salário de Bruno Henrique, e não havia evidências suficientes de que o jogador teria se beneficiado financeiramente.

Mas agora, com as mensagens em mãos e a reconstituição dos passos antes e depois da partida, a Polícia Federal entende que existem elementos para responsabilização penal.

Os crimes e as penas

Bruno Henrique e o irmão foram indiciados por dois crimes:

  • Fraude em competição esportiva (art. 200 da Lei Geral do Esporte) que pode resultar em pena de dois a seis anos de prisão, além de multa.
  • Estelionato (art. 171 do Código Penal): podendo receber pena de um a cinco anos de prisão e multa.

Os outros oito envolvidos foram indiciados por estelionato.

Agora, o relatório da PF foi encaminhado ao Ministério Público do Distrito Federal, que analisará os autos e decidirá se oferece ou não denúncia formal à Justiça.

A reação de Bruno Henrique e do Flamengo

Bruno Henrique manteve o silêncio por meses, até a revelação do indiciamento. Sem gravar vídeos ou entrevistas, o atacante publicou nas redes sociais uma imagem com a arte da partida e uma citação bíblica:
Isaías 41:10 — “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus”.

No ano passado, ao ser questionado sobre o caso após o título da Copa do Brasil, ele declarou:

“Minha vida nunca foi fácil, mas estou tranquilo. Confio na justiça. Estou junto com meus advogados e empresários nessa batalha. Peço que a justiça seja feita”.

Já o Flamengo, em nota divulgada na noite da última terça-feira, afirmou:

“O Flamengo não foi comunicado oficialmente por qualquer autoridade pública acerca dos fatos que vêm sendo noticiados. O clube reafirma seu compromisso com o fair play esportivo, mas também defende a presunção de inocência, o contraditório e a ampla defesa”.

Apesar do indiciamento, Bruno Henrique não foi afastado do elenco e segue à disposição da comissão técnica.

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