O Massacre do Carandiru desvendado: Entenda o que realmente aconteceu

Depois de quase 20 anos, a história sobre o Massacre do Carandiru voltou à tona, trazendo consigo o desespero, a angústia e o sentimento de guerra daquele outubro de 1992. Na próxima semana, irão a julgamento 26 dos 78 policiais envolvidos na morte de 111
24/05/2013 às 00h00
 - Atualizado há 13 anos

Depois de quase 20 anos, a história sobre o Massacre do Carandiru voltou à tona, trazendo consigo o desespero, a angústia e o sentimento de guerra daquele outubro de 1992. Na próxima semana, irão a julgamento 26 dos 78 policiais envolvidos na morte de 111 detentos da extinta Casa de Detenção do Carandiru, na Zona Norte de São Paulo.

Entenda!

Terra sem lei

02 de outubro de 1992, véspera de Eleições municipais. A suposta rebelião teve início com uma briga entre dois detentos de gangues rivais na área externa do Pavilhão 9. Era final do campeonato interno de futebol, jogos estavam acontecendo no pátio do presídio. Muitos detentos estavam fora de suas celas.

A suposta desavença, segundo relatos na época, seria em decorrência de um acerto de venda de maconha. Presos do pavilhão 9 tentaram matar um detento que havia supostamente subtraído grande quantia em dinheiro dos demais companheiros em troca de certa quantidade de droga, que nunca foi entregue.

A confusão se intensificou dentro do pavilhão, envolvendo inúmeros presos ligados aos detentos e o conflito se estendeu no local. Visando impedir a interferência da polícia, os presos atearam fogo em colchões e mobílias, estabelecendo uma barreira na porta do pavilhão.

As autoridades internas do presídio não conseguiram conter a suposta rebelião e acionaram a Polícia Militar.

Os policiais estavam sob o comando do coronel Ubiratan Guimarães, que tinha como objetivo analisar a situação juntamente com o diretor do Carandiru José Ismael Pedrosa. Após as tentativas de negociações com os detentos restarem infrutíferas, o Secretário de Segurança Pública deixou a decisão nas mãos do Comandante, o qual optou pela invasão do local.

Com a interferência da polícia militar iminente, detentos se desfizeram das chamadas “armas brancas” através das janelas de suas celas.

Por volta das 16h30, forças táticas como Grupo de ações táticas especiais (GATE), Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) e o comando de Operações Especiais (COE) invadiram o presídio, contando com armamentos pesados, cavaleiros e cães da raça pastor alemão.

O Pavilhão 9 abrigava cerca de 2.300 presos, composto de 428 celas distribuídas entre os 5 pavimentos. No térreo, não houve mortos ou feridos. O massacre aconteceu nos andares superiores, totalizando 111 detentos mortos e 87 feridos em um lapso temporal de apenas 30 minutos.

Depois da confusão, um corredor polonês foi formado pelos policiais, obrigando diversos presos a correrem nus pelo corredor. Relatos de detentos apontam que sofreram agressões nesta ocasião, como golpes de facas, chutes, murros e mordidas de cachorros. Logo em seguida, a tropa encarregou os detentos de agrupar os cadáveres de seus companheiros, sem qualquer proteção especial para isso.

A polícia alega que os rebelados estavam armados com estiletes, facas de cozinha e as chamadas “zarabatanas”, que eram dardos lançados contendo sangue de aidéticos do complexo. Relatam ainda, que os detentos lançaram paus, telhas e sacos contendo urina nos policiais e que houve trocas de tiros.

No dia seguinte, os dados divulgados para a mídia eram de que apenas 8 detentos foram mortos durante a operação. Além disso, as informações transmitidas pela polícia afirmavam que aquele pavilhão era destinado aos condenados mais perigosos da casa de detenção de São Paulo.

No dia 04 de outubro, a verdade veio à tona e o episódio antes denominado tão somente de rebelião, passou a ser reconhecido como uma verdadeira chacina, enquadrando policiais na posição de autores do massacre. O pavilhão 9, na realidade, era destinado a apenas réus primários e novatos presos preventivamente que ainda não haviam sequer condenação transitada em julgado.

Sobreviventes do massacre alegam que os policiais atiravam com a intenção de matar os detentos. Muitos deles, inclusive, já estavam em suas celas. Outros, segundo confirmações da perícia, foram alvejados de joelhos no chão. Nenhum policial ficou ferido à bala.

Numa atitude impensada, Ubiratan acabou demonstrando os problemas que o sistema carcerário enfrentava na época.

Detentos do Carandiru revelaram, através de um cartaz exposto na janela de uma cela, que o número de mortos seria muito maior que o divulgado pelos policiais. O cartaz continha os dizeres “280 morreu (sic) no massacre”. O próprio secretário de Segurança Pública não soube dizer se o número de mortos era preciso.

Na época, familiares dos detentos assassinados afirmaram que o IML estava dificultando a entrada dos mesmos para reconhecimento dos corpos.

A notícia sobre o massacre ganhou destaque internacional. Jornais como The New York times e The Washington Post, nos Estados Unidos, trataram o episódio como um verdadeiro show de horrores.

O coronel Ubiratan foi o único julgado até hoje. Em 2001, foi condenado a 632 anos de prisão.

No ano seguinte, Ubiratan deixou suas funções na polícia para se candidatar a deputado estadual de São Paulo, e mesmo com o peso de sua condenação pairando na cidade, o ex-coronel foi eleito.

Após a sentença, Ubiratan ingressou com recurso junto ao Órgão Especial do Tribunal de Justiça, que considerou as acusações confusas, decidindo por sua absolvição.

Ubiratan foi assassinado em setembro de 2006 em seu apartamento. No muro do prédio onde residia fora pichado ”aqui se faz, aqui se paga”, em referência ao massacre do Carandiru. Não foi comprovada a relação de sua morte com o acontecido no dia 02 de outubro de 1992.

O julgamento está previsto para acontecer ainda este ano, 20 anos após o massacre.

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