Mitos e verdades: o frio realmente causa doenças respiratórias?

Queda nas temperaturas desafia o sistema respiratório e eleva casos de SRAG no país; especialistas explicam o que muda no organismo e como diferenciar mitos de fatos científicos.
11/08/2026 às 13h53
 - Atualizado há 50 minutos
Vacina gripe
Todos os anos, a chegada do inverno vem acompanhada de uma percepção quase automática: basta a temperatura cair para surgirem tosses, espirros e congestionamentos. Em 2026, no entanto, o cenário ganhou uma dimensão maior. Dados do Instituto Todos pela Saúde mostram que os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causada por influenza quase dobraram no país no primeiro trimestre do ano, passando de 1.838 registros em 2025 para 3.584 no mesmo período deste ano.
O aumento não é resultado de um único fator. O frio altera mecanismos naturais de defesa do organismo, favorece a circulação de vírus e modifica hábitos da população, que passa mais tempo em ambientes fechados e pouco ventilados.
Para ajudar a separar fatos de crenças populares, a médica radiologista Claudia Friedrich, especialista em imagem abdominal e torácica, explica alguns mitos e verdades sobre o assunto.

Mito: O frio, sozinho, causa gripe

Não exatamente. A gripe é causada por vírus, e não pela baixa temperatura. O que acontece é que o inverno cria condições favoráveis para a transmissão desses agentes infecciosos.
Pesquisas publicadas no Journal of Allergy and Clinical Immunology indicam que a queda da temperatura na cavidade nasal reduz a capacidade de defesa local do organismo. O resfriamento da mucosa diminui a liberação de vesículas extracelulares — estruturas produzidas pelas células do nariz que ajudam a capturar e neutralizar vírus antes que eles invadam o corpo. Além disso, o ar frio e seco compromete o funcionamento dos cílios respiratórios, responsáveis por remover partículas, secreções e microrganismos das vias aéreas. Há ainda o fator comportamental: as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados, com menor circulação de ar, o que facilita a propagação viral.

Verdade: Pessoas com doenças respiratórias sofrem mais no inverno

Sim. Pacientes com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), bronquite e fibrose pulmonar costumam apresentar maior sensibilidade às mudanças térmicas. O ar frio pode desencadear irritação nas vias aéreas e agravar sintomas como falta de ar, chiado e tosse persistente. Em muitos casos, as infecções virais também funcionam como gatilho para novas crises.

Mito: Só idosos precisam se preocupar

Não. Embora a terceira idade esteja entre os grupos mais vulneráveis, crianças pequenas, gestantes, imunossuprimidos e pessoas com doenças crônicas também apresentam risco elevado de complicações.
A pandemia também deixou um legado nos consultórios e serviços de diagnóstico, marcado pelo aumento na procura por exames destinados a investigar sintomas respiratórios persistentes e possíveis sequelas pulmonares após infecções virais. Esse movimento reflete uma maior conscientização da sociedade sobre a importância do acompanhamento da saúde pulmonar.

Verdade: Abrir as janelas ajuda a prevenir infecções

Sim. Mesmo nos dias mais frios, manter os ambientes ventilados continua sendo uma das medidas mais eficazes para reduzir a concentração de vírus no ar. A circulação diminui a exposição a partículas respiratórias potencialmente contaminadas e mitiga o risco de transmissão, especialmente em escritórios, escolas, transportes coletivos e residências com grande circulação de pessoas.

Mito: Exames de imagem só são necessários em casos graves

Não necessariamente. Radiografias e tomografias não são indicadas para qualquer resfriado ou quadro gripal simples. No entanto, eles desempenham um papel fundamental quando os sintomas persistem, há suspeita de complicações ou o paciente pertence a grupos de risco.
Os exames de imagem deixaram de atuar apenas na confirmação tardia de doenças e passaram a integrar as decisões clínicas desde os primeiros sinais de alteração pulmonar. Atualmente, a tomografia computadorizada de alta resolução é uma das principais ferramentas para investigar e monitorar afecções no sistema respiratório.

Verdade: Sintomas que duram semanas merecem atenção

Sim. Tosse persistente, cansaço, chiado no peito e falta de ar costumam ser atribuídos a gripes mal curadas ou aos efeitos do clima seco. No entanto, quando permanecem por mais de três semanas, exigem avaliação médica. Sinais prolongados podem estar associados a condições variadas, desde infecções de longa duração até doenças inflamatórias, fibroses pulmonares e tumores em estágio inicial.

O que realmente ajuda a proteger os pulmões no inverno?

A lista de cuidados continua simples, mas essencial:
  • Manter a carteira de vacinação em dia.
  • Evitar permanência prolongada em ambientes fechados e sem ventilação.
  • Higienizar as mãos com frequência.
  • Manter uma hidratação adequada.
  • Controlar rigorosamente doenças respiratórias já diagnosticadas.
  • Buscar avaliação médica imediata diante de sintomas persistentes.
Em um contexto de aumento das doenças respiratórias e envelhecimento populacional, identificar problemas precocemente significa tratamentos mais simples, redução de complicações e uma melhora significativa na qualidade de vida.

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