Solução verde ganha espaço e pode reduzir dependência bilionária do agro

No Brasil, setor de biológicos cresce quatro vezes acima da média global e surge como alternativa estratégica
23/02/2026 às 16h06
 - Atualizado há 6 meses
Insumos

O agronegócio brasileiro, um dos mais produtivos do mundo, começa a acelerar uma mudança estrutural para reduzir sua dependência de fertilizantes e defensivos importados. A aposta está nos bioinsumos, produtos à base de microrganismos e compostos naturais, que vêm crescendo em ritmo acelerado e apontam para uma possível virada na autonomia produtiva do país.

Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que, em 2025, o Brasil importou cerca de 85% dos fertilizantes utilizados, o equivalente a 44,8 milhões de toneladas, além de 759 mil toneladas de ingredientes ativos de agrotóxicos. A maior parte vem de poucos fornecedores, com destaque para China e Rússia, o que representa um custo superior a US$ 25 bilhões por ano.

Vulnerabilidade que pesa no bolso

A concentração de fornecedores expõe o setor a riscos geopolíticos e oscilações de preços. Em 2022, por exemplo, os fertilizantes registraram alta de até 129% no mercado internacional, impactando diretamente os custos de produção no campo.

Segundo o Insper Agro Global, os fertilizantes representam mais de 20% dos custos das lavouras. No caso dos defensivos, o Brasil é o maior importador mundial de pesticidas, responsável por 15% das compras globais em valor. De janeiro a outubro de 2025, foram importadas 863 mil toneladas de agroquímicos — 70% com origem na China.

A nova fronteira do campo

Nesse cenário, os bioinsumos deixam de ser alternativa experimental para se tornarem estratégia econômica e tecnológica. Embora pesquisas em controle biológico tenham mais de 80 anos, foi apenas na última década que o setor ganhou escala industrial e padronização suficientes para competir com os químicos tradicionais.

A pressão por sustentabilidade, regras ambientais mais rígidas no comércio internacional e o aumento da resistência de pragas aos defensivos sintéticos reforçam a transição.

O mercado global de biológicos agrícolas, estimado em US$ 11,7 bilhões em 2022, deve alcançar US$ 33,7 bilhões até 2030. No Brasil, o crescimento é ainda mais acelerado: 22% ao ano, quatro vezes acima da média mundial.

Na safra 2024/25, o faturamento nacional do setor chegou a R$ 4,35 bilhões, alta de 18% em relação ao ciclo anterior. A área potencial tratada com bioinsumos atingiu 156 milhões de hectares, com taxa de adoção de 26% da área agrícola, avanço de três pontos percentuais em apenas um ano.

Desafios e oportunidade histórica

Apesar do avanço, os biológicos ainda representam parcela menor do mercado total de defensivos. Muitos produtores utilizam os produtos de forma complementar, sem abandonar completamente os químicos.

Entre os desafios estão a padronização das formulações, a comprovação de eficácia em larga escala e a consolidação de uma estrutura regulatória e informacional mais robusta.

Para o Cepea, a expansão dos bioinsumos pode representar a rota mais concreta para fortalecer a soberania tecnológica da agricultura brasileira. Produzir cerca de 1,2 bilhão de toneladas de alimentos por safra com 85% dos insumos importados é uma conquista relevante, mas frágil.

A transição para soluções biológicas, ainda que gradual, pode reduzir custos, ampliar a competitividade e aumentar a segurança alimentar. O próximo passo será consolidar dados consistentes de mercado, como séries históricas de preços, oferta e consumo, para dar previsibilidade e estabilidade à nova economia verde do campo.

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