
Espionar o parceiro na internet pode se transformar em crime
Ciúmes na net / Arte: ReproduçãoHistórias de ciúmes que têm como pano de fundo as redes sociais se alastram com a velocidade da própria internet. Namoradas que vão atrás de mensagens privadas do seu par e namorados que se aborrecem ao ver que a parceira foi marcada em alguma foto – o vice-versa também é válido – são algumas das situações cada vez mais comuns na rotina dos relacionamentos. O surgimento dos chamados “detetives virtuais” tem provocado uma onda crescente de invasão de privacidade. E o conhecido ditado “quem procura acha” encontra respaldo nos números.Segundo dados de uma pesquisa feita no Reino Unido pela empresa Mobile Insurance, publicada este ano, cerca de 40% dos parceiros descobrem que estão sendo traídos “fuxicando” o aparelho celular do companheiro. . . O terceiro e último lugar do ranking das formas mais comuns de se confirmar as suspeitas sobre “puladas de cerca” do companheiro é a busca em arquivos no próprio computador, notebook ou tablet do parceiro.Tanta indiscrição pode ser analisada sob dois aspectos: um deles é o prejuízo aos relacionamentos – e, nesse caso, quem espiona e quem é espionado podem colher resultados desastrosos – e o outro é o lucro de quem cria mecanismos para dar vazão ao instinto caçador de um ciumento incorrigível. Um exemplo da segunda situação é o aplicativo conhecido como Rastreador de Namorado, com funções que dão completo acesso ao celular do parceiro. Além de enviar para um celular cadastrado a localização exata do aparelho no qual está instalado, o aplicativo transmite uma cópia de todas as mensagens enviadas e recebidas pelo celular e revela listas de todas as ligações (realizadas, atendidas ou perdidas). O ciumento tem ainda a opção de mandar uma mensagem para a central do aplicativo e o celular espionado automaticamente realiza uma chamada para o aparelho do desconfiado, que passa a receber todo o áudio do ambiente onde outro celular está.Segundo o desenvolvedor do aplicativo, o paulista Danilo Neves, de 27 anos, a ideia de criar o rastreador veio da necessidade de preencher uma “lacuna social”. “As pessoas são muito curiosas, muito desconfiadas. Penso que é assim desde sempre, a tecnologia só auxilia as possibilidades, aprimora a ferramenta investigativa”, afirma. Esse comportamento, de acordo com Danilo, não é privilégio dos brasileiros: “A ideia de aplicativo daria certo em qualquer lugar do mundo. Depois de duas semanas do lançamento, além de centenas de downloads do Brasil, temos várias pedidos para outras línguas também.”O aplicativo tem duas versões. A gratuita executa todas as funções descritas, mas é de fácil detecção, já quem mantém o logotipo do aplicativo na página principal do smartphone do usuário. A versão paga custa R$ 4,99 (mensais) e fica invisível no celular do parceiro.Aos adeptos desse tipo de estratégia, convém um esclarecimento. O advogado Rudolph Menezes adverte que, quando não há consentimento do outro para instalar esse tipo de mecanismo em celulares e/ou computadores ou quando a situação começa a se tornar incômoda, a espionagem virtual passa a ser considerada crime, previsto na chamada Lei Carolina Dieckmann, em referência à atriz que foi vítima de espionagem digital e teve fotos íntimas divulgadas na internet. “Celulares, computadores e contas de e-mail são privativos. Aproveitar-se de uma situação para instalar um aplicativo e invadir conversas privadas é abuso de confiança, fraude, que fere os direitos de privacidade.”Rudolph Menezes acrescenta que, mesmo que a senha do e-mail ou de redes sociais fiquem gravadas no computador do parceiro, ele não pode usar isso para obter informações privadas. “Não importa qual o conteúdo, se tem valor monetário ou político. Se alguém está se aproveitando de uma situação do dia a dia para ter acesso a um computador ou a uma conta para obter informações sem consentimento do proprietário, configura-se crime”, encerra.Evite ser espionado
- Nunca registre o histórico de suas conversas, seja no Facebook, Gtalk, ou qualquer plataforma. Essa é a forma mais fácil de ter as informações íntimas facilmente expostas. Praticamente todos os programas e sites têm opções que desativam o registro de históricos de conversa.
- Celulares de última geração têm algum sistema de bloqueio por meio de senha. Mesmo assim, é preciso ficar atento: as senhas são de fácil visualização para quem está perto de você. Logo, é recomendável trocá-las periodicamente.
- O recurso que mostra a mensagem assim que ela é recebida na tela do celular pode ser muito prático, porém nada discreto. Os principais sistemas operacionais de celulares (Android e IOS) permitem a desativação desse recurso.
- Para conversas que exijam mais discrição, que tal usar um aplicativo diferente do usual WhatsApp? Kik Messenger ou Message Me são exemplos de programas com a mesma função, que podem ficar escondidos em uma pasta na quinta página do seu smartphone.
O gatilho para as brigasAlém das implicações jurídicas, a espionagem virtual pode render problemas conjugais. Silvana (nome fictício), de 35 anos, descobriu que o marido mantinha uma relação extraconjugal acessando as mensagens do celular dele. “Eu estou sempre ligada, sempre fui assim. Tenho o hábito de ficar procurando alguma coisa errada. Em uma dessas vezes, peguei várias mensagens dele com uma mulher, bem explícitas mesmo”, admite Silvana. O casal chegou a terminar por alguns meses, mas reatou o relacionamento há um ano. Para ela, é normal bancar a detetive virtual. “Não dá pra dar mole nesse mundo cheio de gente sem-vergonha em que a gente vive. Eu confio nele, de verdade. Não confio e nunca vou confiar é nas outras mulheres”, justifica.Segundo a psicóloga Roberta Paiva, o ciúme é um sentimento normal em qualquer relacionamento, mas, quando ele sai do plano dos pensamentos para ações concretas, torna-se um problema. Para ela, é preciso ficar claro que um relacionamento não representa uma fusão das pessoas, portanto não dá direito à invasão de privacidade. “Independentemente do nível de relação, um não está inserido dentro do outro. A relação é uma união, na qual as pessoas têm pontos em comum”, diz ela.O casal de namorados Oscar e Juliana (nomes fictícios) cansou de ter problemas devido a redes sociais. Tanto um quanto o outro já cometeram excessos motivados por ciúmes. Juliana alega que Oscar não costumava ser ciumento na vida real, mas no ambiente virtual, a coisa era diferente: “Bastava eu adicionar um homem no Facebook que ele já ficava todo desconfiado, me fazendo mil perguntas”, diz ela. Já Oscar diz que não podia entrar no banho que a companheira corria para suas mensagens privadas.A solução foi compartilhar um único perfil de Facebook. Com a página de casal, Oscar e Juliana se correspondem com os amigos de um e de outro, com as conversas sempre abertas. “Depois disso, não tivemos mais problema nenhum com ciúmes e redes sociais”, afirma a moça. “Não sei se é a melhor forma de se resolver o problema, mas está funcionando para nós”, concorda Oscar. Para a psicóloga Roberta Paiva, as redes sociais podem ser gatilhos para desentendimentos, porque os ciumentos podem tratar situações imaginárias como reais. “O fundamental é ter diálogo, sempre. Uma relação madura e saudável conduz os indivíduos a viver sua própria individualidade, mesmo dentro da relação”, aconselha.Fonte: Estado de Minas
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