
De fábrica de craques a setor de dúvidas: laterais deixam Seleção sem unanimidades às vésperas da Copa

Durante décadas, as laterais da seleção brasileira foram sinônimo de excelência. Nomes como Jorginho, Branco, Cafu, Roberto Carlos, Maicon e Marcelo ajudaram a construir a identidade ofensiva do futebol nacional e se tornaram referências mundiais em suas posições. Mas, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o cenário é bem diferente.
A poucos dias da estreia contra o Marrocos, a Seleção comandada por Carlo Ancelotti chega ao Mundial sem uma definição clara para os dois lados da defesa. O corte de Wesley, um dos poucos nomes que surgiam como esperança de renovação, aumentou ainda mais as dúvidas em um setor que já vinha sendo alvo de questionamentos ao longo do ciclo.
Na direita, as opções passam por Danilo e Ibañez, jogadores que atuam frequentemente como zagueiros em seus clubes. Pela esquerda, Alex Sandro e Douglas Santos disputam espaço. Nenhum deles, porém, carrega o status de unanimidade que marcou gerações anteriores.
O problema, no entanto, está longe de ser exclusivamente brasileiro.
Crise global muda perfil dos laterais
A escassez de laterais ofensivos de destaque tem sido observada nas principais ligas do mundo. Clubes como Manchester City, Arsenal e Bayern de Munique passaram a utilizar zagueiros ou meio-campistas adaptados nas laterais, enquanto gigantes como Barcelona e Real Madrid enfrentam dificuldades para encontrar especialistas nas posições.
Uma das explicações está na evolução tática do futebol moderno. Com a popularização dos pontas que atuam abertos pelos lados do campo, os laterais deixaram de ser os principais responsáveis pela profundidade ofensiva.
Segundo o comentarista Carlos Eduardo Mansur, a função se tornou muito mais diversificada.
Hoje existem laterais que atuam por dentro como meio-campistas, outros que priorizam a construção das jogadas e até zagueiros convertidos para a função. O resultado é uma mudança radical em relação ao perfil dos jogadores que dominaram a posição nas décadas anteriores.
O ex-lateral e tetracampeão mundial Jorginho também aponta a redução dos espaços em campo como fator determinante para a transformação.
Com linhas defensivas cada vez mais compactas e pontas acompanhando a marcação dos laterais, as tradicionais arrancadas até a linha de fundo se tornaram menos frequentes. A consequência é uma diminuição da relevância daquele lateral que construía sua carreira baseada em velocidade e cruzamentos.
Renovação não se consolidou
As dificuldades da Seleção ficam evidentes nos números. Desde o início do ciclo para a Copa de 2026, 24 laterais diferentes foram convocados. É o segundo setor com mais atletas testados, atrás apenas dos atacantes.
Apesar das inúmeras oportunidades dadas a jovens promessas, a renovação não se consolidou. Tanto que a lista final para o Mundial voltou a apostar em nomes experientes como Danilo e Alex Sandro.
A média de idade dos laterais convocados para a Copa é de 30 anos, evidenciando que os jogadores mais jovens ainda não conseguiram assumir protagonismo na equipe nacional.
Formação preocupa especialistas
Para o técnico Ramon Menezes, que comandou a Seleção Sub-20 entre 2022 e 2025, a saída precoce de jovens atletas para o futebol europeu tem dificultado o amadurecimento de muitos talentos.
Segundo ele, diversos laterais promissores deixaram o Brasil antes de completarem seu processo de desenvolvimento, enfrentando obstáculos como adaptação cultural, idioma e falta de sequência em campo.
Casos como os de Arthur e Vinicius Tobias são apontados como exemplos de atletas que apresentavam grande potencial nas categorias de base, mas encontraram dificuldades para consolidar suas carreiras após transferências precoces para o exterior.
Zagueiros ganham espaço como alternativa
Diante da falta de especialistas, uma solução cada vez mais utilizada pelos treinadores é a adaptação de zagueiros para as laterais.
A estratégia já foi adotada por equipes campeãs na Europa e também passou a fazer parte da realidade da Seleção Brasileira. Na Copa de 2022, Éder Militão atuou pela direita. Agora, Danilo e Ibañez aparecem como opções para desempenhar funções semelhantes.
A tendência acompanha a exigência do futebol moderno, que valoriza laterais mais fortes nos duelos defensivos e capazes de formar linhas de três zagueiros durante a saída de bola.
Desafio de Ancelotti
Apesar das incertezas nas laterais, o Brasil mantém uma característica que poucas seleções possuem: abundância de pontas talentosos e capazes de desequilibrar pelos dois lados do campo.
A missão de Carlo Ancelotti será justamente encontrar o equilíbrio entre segurança defensiva e força ofensiva, potencializando as características dos jogadores disponíveis para compensar a ausência de laterais protagonistas.
A resposta começará a ser dada no próximo sábado, quando a Seleção estreia na Copa do Mundo diante do Marrocos. Mais do que buscar a primeira vitória, o Brasil tentará mostrar que consegue superar uma das maiores dúvidas do seu elenco em um setor que, durante décadas, foi motivo de orgulho nacional.
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