Cientistas paulistas desvendam estratégia do mofo azul e abrem caminho para proteger citros sem agrotóxicos

Pesquisa premiada revela como fungo responsável por grandes prejuízos na citricultura consegue driblar as defesas naturais de laranjas, limões e tangerinas
03/06/2026 às 16h36
 - Atualizado há 2 meses
Laranj

Um estudo desenvolvido por pesquisadores paulistas revelou, pela primeira vez, como o fungo responsável pelo temido mofo azul consegue invadir e devastar frutas cítricas. A descoberta pode representar um avanço importante para a citricultura brasileira ao abrir caminho para novas formas de combate à doença sem a necessidade do uso de agrotóxicos.

Realizada por cientistas da Universidade Estadual de Campinas e da Universidade de São Paulo, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a pesquisa identificou o arsenal químico utilizado pelo fungo Penicillium italicum para neutralizar as defesas naturais de laranjas, limões e tangerinas e eliminar microrganismos benéficos que ajudam a proteger os frutos.

O trabalho foi publicado na revista científica Journal of Agricultural and Food Chemistry e recebeu reconhecimento internacional ao ser escolhido como o melhor artigo científico de 2025 pela publicação.

O inimigo invisível das frutas cítricas

Conhecido pelos produtores rurais, o mofo azul é uma das principais causas de perdas pós-colheita na citricultura. Basta uma pequena lesão na casca para que o fungo encontre uma porta de entrada e inicie rapidamente a infecção.

Segundo os pesquisadores, o ataque ocorre em etapas. Nos primeiros dias, o fungo utiliza enzimas para degradar a parede celular da fruta. Em resposta, o fruto produz compostos naturais com ação antifúngica para tentar conter a invasão.

A batalha química, porém, é desigual.

Os cientistas descobriram que o Penicillium italicum produz substâncias capazes não apenas de neutralizar essas defesas, mas também de eliminar microrganismos benéficos que vivem na superfície da fruta e ajudam a protegê-la contra agentes invasores.”O patógeno não luta apenas contra as defesas da fruta, mas também contra os microrganismos do bem que vivem na casca e tentam protegê-la”, explicou a pesquisadora Taícia Pacheco Fill, autora principal do estudo.

Mapeamento inédito revela arsenal químico

Para entender o processo de infecção, os pesquisadores utilizaram técnicas avançadas de metabolômica, área da ciência que analisa as moléculas produzidas pelos organismos durante seu metabolismo.

O estudo permitiu identificar compostos fundamentais para o desenvolvimento da doença. Entre eles estão substâncias produzidas pelo fungo que atuam diretamente no enfraquecimento das defesas naturais do fruto.

Além disso, técnicas de imageamento por espectrometria de massa permitiram visualizar a distribuição dessas moléculas ao longo da infecção, revelando uma espécie de “guerra química” travada na superfície da fruta.

O pesquisador Evandro Silva explica que a identificação dessas substâncias representa um passo decisivo para o desenvolvimento de novas soluções. “Sem esses compostos químicos, observamos em laboratório que o fungo cresce muito pouco. Isso abre espaço para novas estratégias de controle”, destacou.

Menos agrotóxicos, mais sustentabilidade

Atualmente, o controle do mofo azul depende principalmente da aplicação de fungicidas sintéticos. O problema é que muitos desses produtos vêm enfrentando resistência crescente dos fungos, além de levantarem preocupações ambientais.

Com a descoberta, os pesquisadores pretendem desenvolver inibidores capazes de bloquear especificamente as substâncias utilizadas pelo fungo durante o processo de infecção.

A vantagem dessa abordagem é que ela combate diretamente o patógeno sem afetar o fruto, reduzindo riscos ambientais e diminuindo a necessidade do uso de defensivos químicos.

Impacto para a citricultura brasileira

O avanço é especialmente relevante para o Brasil, maior produtor mundial de laranja e líder global na exportação de suco cítrico.

Embora o mofo verde ainda seja o principal responsável pelas perdas pós-colheita, o mofo azul ocupa a segunda posição entre os fungos mais prejudiciais para o setor e pode causar prejuízos significativos em diferentes etapas da cadeia produtiva.

Para os pesquisadores, compreender em detalhes como esses patógenos atuam é o primeiro passo para desenvolver métodos de controle mais seguros, sustentáveis e eficazes.

A expectativa agora é transformar o conhecimento obtido em laboratório em soluções práticas para o campo, ajudando produtores a reduzir perdas, preservar a qualidade dos frutos e diminuir a dependência de agrotóxicos nas lavouras brasileiras.

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