Escolha errada de muda pode derrubar produção de borracha em até 75%, revela estudo

Pesquisa da Unicamp e do IAC aponta que o porta-enxerto da seringueira influencia diretamente a produtividade do látex e pode definir o sucesso da plantação.
25/05/2026 às 14h34
 - Atualizado há 3 meses
Borracha
A borracha natural continua insubstituível para vários usos, como a confecção de pneus para aeronaves e de equipamentos médicos — Foto: Reprodução Agência SP

Um detalhe pouco observado na formação das mudas de seringueira pode estar comprometendo a produção de borracha natural no Brasil há décadas. Um estudo conduzido pela Universidade Estadual de Campinas e pelo Instituto Agronômico revelou que a escolha inadequada do porta-enxerto,  estrutura que sustenta o clone enxertado, pode reduzir drasticamente a produtividade das árvores.

Segundo os pesquisadores, a combinação correta entre clone e porta-enxerto pode aumentar a produção de látex em até 75%. Já a escolha errada pode fazer a seringueira render apenas um quarto do potencial esperado.

Os resultados foram publicados na revista científica The Plant Genome e ajudam a explicar por que muitos produtores registram baixo desempenho mesmo utilizando clones considerados altamente produtivos.

Problema só aparece anos depois

Na prática agrícola, a seringueira é cultivada por enxertia. O processo utiliza um clone selecionado, como o RRIM 600, um dos mais populares do Brasil, inserido sobre um porta-enxerto originado de sementes.

Historicamente, programas de melhoramento focaram quase exclusivamente no clone enxertado. O novo estudo, porém, mostra que o porta-enxerto interfere diretamente na fisiologia da planta e no funcionamento dos genes ligados à produção de látex. “Quando se planta o melhor clone sobre o porta-enxerto errado, a produção pode cair para apenas 25% do que seria esperado com a combinação correta”, explica Anete Pereira de Souza, coordenadora da pesquisa.

Os testes comprovaram essa diferença. A combinação do clone RRIM 600 com o porta-enxerto PB 235 apresentou produtividade média de 76,03 gramas de borracha seca por árvore em cada sangria. Já plantas cultivadas em porta-enxertos não selecionados produziram apenas 43,29 gramas.

Genes da planta também são afetados

Para entender os motivos da variação, os pesquisadores analisaram o transcriptoma das árvores, conjunto de genes expressos pela planta em diferentes combinações de enxerto e porta-enxerto.

O estudo identificou milhares de genes cuja atividade muda conforme a combinação utilizada, incluindo genes diretamente ligados à produção de borracha. “Os porta-enxertos não são apenas suportes físicos, mas agentes ativos na regulação genética da planta enxertada”, afirma Wanderson Lima Cunha, primeiro autor do artigo científico.

A pesquisa também identificou participação de hormônios vegetais ligados à resposta ao estresse e à biossíntese da borracha, indicando que o porta-enxerto atua como modulador do metabolismo da seringueira.

Brasil ainda depende de importações

Apesar da importância estratégica da borracha natural para setores como indústria aeronáutica e equipamentos médicos, o Brasil responde por menos de 2% da produção mundial e ainda depende da importação da matéria-prima.

Atualmente, os maiores produtores globais são Tailândia, Indonésia e Vietnã. No Brasil, o principal polo da cultura migrou da Amazônia para o estado de São Paulo.

Como a seringueira leva cerca de dez anos para atingir plena produção, o erro na escolha da muda costuma ser descoberto apenas muito tempo depois do plantio. “Quando o agricultor compra a muda, ele pede o clone, mas quase nunca recebe informação sobre o porta-enxerto. O prejuízo só aparece anos depois”, alerta Souza.

Cartilha deve orientar produtores

Com base nos resultados, o IAC prepara uma cartilha técnica para orientar viveiristas e produtores sobre as melhores combinações entre clones e porta-enxertos.

Os pesquisadores também defendem que a identificação do porta-enxerto passe a ser obrigatória na comercialização das mudas, medida que pode ajudar a evitar prejuízos e aumentar a competitividade da produção brasileira de borracha natural.

O estudo teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e contou também com a participação do pesquisador Paulo Gonçalves, referência mundial em borracha natural.

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