
O enigma que faz a pedra desafiar a lógica no gelo

O espetáculo das pedras deslizando e desenhando curvas improváveis sobre o gelo é uma das imagens mais marcantes do Jogos Olímpicos de Inverno. Mas por trás da aparente simplicidade do curling, um detalhe intriga cientistas há mais de um século: por que a pedra curva na mesma direção em que gira e não no sentido oposto, como a física básica sugeriria?
O mistério acompanha o esporte desde suas origens, no século 16, quando partidas eram disputadas em lagos congelados da Escócia. Hoje modalidade olímpica, o curling consiste em lançar uma pedra de granito em direção a um alvo chamado “casa”, enquanto companheiros de equipe varrem o gelo à frente para controlar velocidade e trajetória. A cena parece coreografada. A explicação, nem tanto.
Se um jogador aplica rotação horária no lançamento, a pedra termina curvando para a direita. Em teoria, deveria acontecer o contrário, como ocorre quando se desliza um objeto girando sobre um tapete. Essa contradição é o coração do debate científico. “A comunidade científica ainda não chegou a um consenso sobre a física do curling”, afirma Jennifer Vail, especialista em tribologia, área que estuda atrito, lubrificação e desgaste e autora do livro Friction: A Biography.
Segundo ela, apesar de mais de 100 anos de pesquisas, os mecanismos exatos da curvatura permanecem sem explicação definitiva.
Mecânica complexa
Parte do enigma está nos detalhes. As pedras não são blocos comuns de rocha. Produzidas a partir de granitos específicos extraídos no País de Gales e na Escócia, elas têm base levemente côncava. Apenas uma fina borda, chamada de “faixa de rolamento”, toca o gelo.
A superfície também é especial. Antes das partidas, o gelo recebe pequenas gotas de água que congelam e criam uma textura granulada. Paradoxalmente, essa aspereza reduz o atrito total, pois diminui a área real de contato entre pedra e gelo.
Há ainda o papel da água. Conforme a pedra desliza, o atrito gera calor suficiente para formar uma película microscópica de água, funcionando como lubrificante. Em alta velocidade, a pedra praticamente “aquaplana” em linha reta. À medida que desacelera, a quantidade de água diminui, o gelo passa a oferecer mais resistência e a curvatura começa a aparecer. No fim do trajeto, sem água alguma, o atrito seco faz a pedra parar.
Teorias e disputas
A primeira tentativa formal de explicação surgiu em 1924, quando o pesquisador canadense E. L. Harrington propôs que diferenças de atrito entre os lados esquerdo e direito da pedra causariam a curva. A hipótese, conhecida como “assimetria esquerda-direita”, abriu caminho para outras teorias, mas nenhuma encerrou o debate.
Modelos como o da “camada de água”, o do “limpa-neve” e o do “deslizamento e aderência” tentaram preencher as lacunas. Mais recentemente, em 2022, o físico japonês Jiro Murata, da Universidade Rikkyo, adotou uma abordagem diferente: filmou pedras com alta precisão antes de formular equações.
Murata concluiu que a rotação não empurra diretamente a pedra para o lado. Em vez disso, cria uma diferença de atrito que funciona como ponto de pivô — semelhante a alguém correndo enquanto segura um poste, curvando-se ao redor dele. Em 2024, ele e duas estudantes testaram ainda o impacto da varredura, concluindo que esfregar o gelo na parte externa da curva pode aumentar o ângulo do desvio.
Nem mesmo a tecnologia escapou das polêmicas. Em 2015, escovas com materiais capazes de arranhar o gelo geraram o escândalo conhecido como “broomgate”. A federação internacional proibiu certos modelos no ano seguinte e passou a regular rigorosamente técnicas e equipamentos.
Mistério aberto
Apesar dos avanços, não há consenso. Variáveis como temperatura, umidade, composição química do gelo e microfraturas entram na equação. O curling, ao que tudo indica, continua desafiando fórmulas prontas.
Entre estratégias frias e cálculos minuciosos, o esporte da vassoura segue como um raro caso em que atletas competem no mais alto nível enquanto cientistas ainda tentam entender exatamente o que acontece sob seus pés.
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