
Das mãos que sentem dor nasce uma invenção que transforma vidas

O que começou como um simples calo nos dedos virou uma invenção capaz de mudar a forma como crianças cegas desenvolvem a escrita. A trajetória da professora e pesquisadora Suraya Gomes Novais Shimano, francana, filha da escola pública e movida pela educação, é daquelas histórias que unem ciência, sensibilidade social e persistência e que agora ganha reconhecimento com a concessão de uma patente nacional. Ela desenvolveu um punção semiautomático acessível para facilitar a alfabetização de crianças com deficiência visual.
A fisioterapeuta nasceu em Franca, tem 46 anos e construiu toda a sua base educacional em escolas públicas. Desde cedo, carregava um desejo claro: ser professora e transformar vidas por meio do conhecimento. Formou-se em Fisioterapia, fez mestrado em Bioengenharia e doutorado em Ciências da Reabilitação, enfrentando um caminho exigente, inclusive financeiramente, para seguir na vida acadêmica.
Suraya aprendeu que educação e persistência caminham juntas. Formada em Fisioterapia, professora universitária e pesquisadora, ela acaba de conquistar uma patente concedida pelo INPI que promete impactar diretamente a alfabetização de pessoas com deficiência visual no Brasil e no mundo.

A invenção, uma punção semiautomático portátil para escrita em Braille, nasceu não em um grande laboratório industrial, mas da vivência, da empatia e da prática cotidiana. Tudo começou em 2011, durante um curso de Braille. Ao sentir na própria pele a dor causada pelo uso do punção tradicional, Suraya percebeu que aquele método, especialmente para crianças, poderia ser menos doloroso, mais ergonômico e mais humano. “Eu fiz calos nos dedos. Aquilo não era ergonômico, não era adequado nem para um adulto, imagine para uma criança em fase de alfabetização”, relembra.
Uma trajetória marcada pela educação e pela inclusão
Nascida em Franca, Suraya construiu sua formação integralmente ligada ao ensino público. Graduou-se em Fisioterapia pelas Faculdades Claretianas de Batatais, fez mestrado em Bioengenharia na USP de Ribeirão Preto e doutorado em Ciências da Reabilitação. Em 2008, ingressou como professora na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), onde atua até hoje.
Foi nesse período que sua relação com a acessibilidade ganhou ainda mais força. Ao ministrar aulas de fisioterapia aquática no Instituto de Cegos do Brasil Central, criou o Projeto Promover, uma iniciativa de extensão universitária voltada à promoção da saúde, autonomia e qualidade de vida de pessoas com deficiência visual. O projeto cresceu, se multiplicou e hoje integra uma rede internacional de extensão presente em quase 30 universidades ao redor do mundo.
Da dificuldade à invenção

O incômodo com o punção tradicional rapidamente virou inquietação científica. Suraya passou a testar formatos, materiais e mecanismos até entender que o problema não estava na ponta que perfura o papel, mas na forma de segurar o instrumento e na força exigida para a escrita.
A solução veio com um dispositivo mecânico com molas, que reduz o esforço físico e torna o processo de escrita mais rápido e confortável. Foram oito anos de pesquisa, inúmeros testes e quatro versões de protótipos até chegar ao modelo final funcional. “Não foi fácil. Teve momentos de desânimo, mas eu nunca pensei em desistir. Meu objetivo sempre foi ajudar crianças que não têm acesso a tecnologias caras”, afirma.
Patente, ciência e impacto social

A patente foi desenvolvida dentro da UFTM, em parceria com o marido de Suraya, o engenheiro mecânico, Marcos Massao Shimano, e um aluno orientado por ele. O processo de registro levou cinco anos, passando por uma longa e rigorosa análise técnica até a concessão final.
Para Suraya, mais do que exclusividade sobre a tecnologia, a patente representa possibilidade de transformação social. “Agora posso divulgar, compartilhar, permitir que outras pessoas pesquisem, melhorem e ampliem as tecnologias assistivas. Isso abre uma janela enorme para a inclusão”, destaca.
Alfabetização mais acessível e prazerosa
O punção semiautomático não muda o método de ensino do Braille, mas facilita o processo, reduz a dor, o cansaço muscular e permite que crianças pratiquem mais, com mais prazer e autonomia. Além de crianças, adultos e qualquer pessoa interessada em aprender Braille também podem se beneficiar.
O sonho da pesquisadora é ver o equipamento chegando a quem mais precisa, especialmente por meio de políticas públicas inclusivas, licitações e distribuição em escolas e instituições. “Meu desejo é que chegue às mãos de quem não pode comprar. Inclusão é direito”, afirma.
Uma mensagem para mulheres que sonham em inovar
Ao refletir sobre sua trajetória, Suraya deixa um recado direto para outras mulheres pesquisadoras, educadoras e inventoras: “Não desistam. Os empecilhos sempre vão existir. A maioria das invenções que usamos no dia a dia foi criada por mulheres que insistiram. Nada nasce pronto. Tudo é lapidado.”
Para ela, a conquista da patente não é um ponto final, mas um símbolo de continuidade. “Eu fico feliz quando meu trabalho segue adiante, quando outras pessoas se juntam, quando isso inspira alguém. No fim, sempre dá certo.”
E, no caso de Suraya, aconteceu com ciência, sensibilidade e o orgulho de levar o nome de Franca para além das fronteiras, transformando conhecimento em inclusão.
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