Alta do milho volta a pressionar custos e acende sinal vermelho na suinocultura para 2026

Dados da Embrapa mostram que avanço da ração no segundo semestre de 2025 impactou a rentabilidade; cenário exige planejamento estratégico do produtor
12/02/2026 às 16h06
 - Atualizado há 5 meses
Milho

O custo de produção da suinocultura brasileira voltou a preocupar produtores e cooperativas na reta final de 2025. Depois de um primeiro semestre marcado por alívio nos gastos, a alta do milho no segundo semestre reacendeu o sinal de alerta no setor, especialmente porque a ração representa mais de 70% do custo total da atividade.

Segundo dados da Embrapa, o ano foi dividido em dois momentos distintos. A redução nos preços do milho e do farelo de soja nos primeiros meses trouxe fôlego ao caixa das granjas. No entanto, a partir do início do segundo semestre, houve uma reversão clara do cenário, com impacto direto sobre o custo do suíno vivo. “O primeiro semestre foi de queda nos custos, mas no segundo tivemos uma reversão puxada principalmente pelo milho”, explica Marcelo Miele, pesquisador da Embrapa Aves e Suínos.

O comportamento cíclico da oferta do grão, especialmente no período de entressafra, voltou a pressionar não só a suinocultura, mas também a produção de frangos e ovos.

Estratégia faz diferença no resultado

Em um setor que não define preços e depende das condições de mercado, pequenas variações nos insumos podem alterar significativamente a margem do produtor. Por isso, a gestão estratégica ganhou ainda mais relevância.

Produtores com capacidade de estocagem e planejamento de compras conseguem reduzir parte do impacto das oscilações. “O valor do milho no custo depende muito da estratégia de aquisição e da proteção de risco de cada produtor ou cooperativa”, afirma Miele.

Ter capital de giro e formar estoques em momentos de preços mais baixos é, segundo o pesquisador, uma das principais formas de enfrentar períodos de alta.

Outros custos avançam de forma silenciosa

Embora a ração seja o principal peso no orçamento, outros itens vêm crescendo de forma contínua nos últimos anos. Mão de obra, energia elétrica, construções e equipamentos apresentam tendência histórica de alta e impactam diretamente a depreciação e o custo de capital das granjas. “O mercado rural e urbano hoje são vasos comunicantes, o que leva a uma maior equalização dos salários”, destaca Miele, apontando a pressão sobre a folha de pagamento.

Em Santa Catarina, por exemplo, o custo de produção registrou alta próxima de 1% apenas em dezembro, novamente influenciado pelo milho.

Independente ou integrado: o impacto muda

O peso dos custos também varia conforme o modelo de produção. No sistema independente ou no mercado spot, a atenção está concentrada principalmente na ração e na genética. Já no sistema de integração, onde esses itens ficam sob responsabilidade da agroindústria, despesas como mão de obra, energia e estrutura ganham maior protagonismo.

Essa diferença reforça a importância de o produtor conhecer bem sua realidade e direcionar esforços para os pontos que mais impactam seu modelo de negócio.

Rentabilidade nem sempre acompanha o custo

Apesar de o custo de produção ter acumulado alta de 4,39% em 2025, isso não significou automaticamente perda de rentabilidade. Até setembro e outubro, a relação entre o preço do suíno vivo e o custo da ração foi considerada favorável, sustentada pelo avanço das exportações e pelo bom consumo interno.

A deterioração dessa relação ocorreu apenas no final do ano, com custos mais elevados e recuo no preço do suíno. Ainda assim, os patamares permanecem acima da média histórica.

O que esperar de 2026?

Para 2026, a expectativa é de maior estabilidade no curto prazo. “Devemos manter um patamar semelhante ao final de 2025 e início de 2026”, projeta Miele. O primeiro semestre tende a apresentar custos relativamente estáveis, com oscilações ligadas ao mercado do milho.

As maiores incertezas estão relacionadas ao cenário externo. Questões climáticas, geopolíticas e políticas internas podem afetar tanto a oferta de grãos quanto o desempenho das exportações.

Desafios dentro e fora da porteira

Entre os principais desafios econômicos da suinocultura, o pesquisador aponta dois eixos centrais. O primeiro está dentro da granja: eficiência produtiva, redução de desperdícios, sustentabilidade, bem-estar animal e sucessão familiar.

O segundo envolve o equilíbrio entre oferta e demanda. Ajustar o alojamento de matrizes ao ritmo do mercado é um exercício delicado. Qualquer excesso de produção pode pressionar preços e comprometer margens.

Além disso, fatores sanitários continuam no radar. Eventuais restrições às exportações podem gerar impactos relevantes no mercado interno.

Ao produtor, o recado é direto: informação e planejamento serão decisivos em 2026. “Buscar boas fontes de dados e especialistas para definir o melhor momento de compra dos grãos é fundamental”, reforça Miele. Estudos com ingredientes alternativos ao milho também avançam e podem se tornar aliados importantes, especialmente em regiões com déficit de grãos.

Em um cenário de margens apertadas, eficiência e estratégia deixam de ser diferenciais e passam a ser questão de sobrevivência no campo.

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