Sofrimento invisível deixa marcas profundas e exige atenção sem preconceito

Durante o Janeiro Branco, médico do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec alerta para os impactos dos transtornos mentais no cérebro, em Franca
29/01/2026 às 13h32
 - Atualizado há 7 meses
Médico psiquiatra Henrique Cassis Ribeiro Santos, diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec — Foto: Divulgação

O sofrimento mental vai muito além do emocional e pode causar danos reais ao cérebro. O alerta é do médico psiquiatra Henrique Cassis Ribeiro Santos, diretor clínico do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, da Fundação Espírita Allan Kardec, durante a campanha Janeiro Branco, dedicada à conscientização sobre a saúde mental. “O sofrimento mental machuca o cérebro”, resume o especialista.

Segundo o médico, cerca de 10% da população convive com algum transtorno mental, como depressão, ansiedade, transtornos obsessivo-compulsivos, psicóticos, de humor ou de personalidade. Apesar dos avanços no debate público, ele destaca que o tema ainda é cercado por preconceito e desinformação, o que leva muitas pessoas a atrasarem ou abandonarem o tratamento. “Muitos até reconhecem que estão sofrendo, mas resistem à ideia de tratamento. Às vezes abandonam consultas, usam medicamentos de forma irregular ou acreditam que vão superar tudo apenas com força de vontade”, explica. Para o psiquiatra, essa resistência, muitas vezes inconsciente, agrava os quadros e prolonga o sofrimento.

Um dos grandes desafios está em identificar os sinais quando o transtorno não interrompe totalmente a rotina. “Nem sempre a pessoa está em sofrimento intenso. Muitas seguem funcionais, mas com qualidade de vida muito abaixo do que poderiam ter”, observa. Alterações no sono, dores físicas recorrentes, cansaço persistente, queda de rendimento e mudanças de comportamento devem ser vistos como alertas importantes.

O médico destaca que esses sintomas costumam ser confundidos com o desgaste da vida moderna. Jornadas longas, excesso de responsabilidades, pressão por resultados e estímulos constantes contribuem para o adoecimento psíquico. “Nem todo cansaço é apenas cansaço. Muitas vezes, é um transtorno psiquiátrico em curso”, alerta.

Entre os quadros mais frequentes atualmente estão os transtornos depressivos e ansiosos, que representam a maior parte dos atendimentos. A pandemia da Covid-19 também deixou impactos duradouros. “Muitos transtornos começaram naquele período e se tornaram crônicos por falta de tratamento adequado”, relata.

Outro fator que merece atenção são as redes sociais. De acordo com Henrique, elas podem intensificar o sofrimento ao expor padrões irreais e vidas idealizadas. “Para quem já está fragilizado, isso pode agravar ainda mais o quadro”, afirma, chamando atenção também para falsas promessas de cura e soluções milagrosas que exploram pessoas em vulnerabilidade emocional.

Do ponto de vista biológico, o psiquiatra reforça que o sofrimento mental provoca inflamações cerebrais, alterações hormonais e mudanças nas conexões do cérebro. “Quanto mais tempo o transtorno permanece ativo sem tratamento, maior o prejuízo e mais difícil a recuperação”, explica, ressaltando a importância do cuidado precoce.

Cuidados no dia a dia

Atitudes simples podem ajudar na preservação da saúde mental, como manter uma rotina organizada, cuidar do sono, evitar o consumo excessivo de álcool, praticar atividade física, estimular a mente e fortalecer vínculos sociais. “Ouvir música, conversar, ter exposição à luz natural durante o dia e reduzir o uso de telas à noite já fazem muita diferença”, orienta.

Para quem ainda vê a busca por ajuda como sinal de fraqueza, o médico é direto: “A pessoa até pode ser funcional, mas vai viver aquém do que poderia. Vai sofrer mais, ter maior risco de doenças clínicas e não alcançar sua plenitude. A vida passa muito rápido para ser vivida em sofrimento”.

Em Franca, a população conta com uma rede de atenção à saúde mental que inclui UBSs, CAPS, ambulatórios e a rede privada, além do Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, que atua como retaguarda para casos mais agudos. “O sofrimento faz parte da vida, mas quando se torna contínuo e causa prejuízos, é hora de procurar ajuda. Cuidar da saúde mental é cuidar da vida”, conclui o especialista.

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