Ultraprocessados dobram participação no prato do brasileiro em quatro décadas

No Brasil, consumo saltou de 10% para 23% e segue tendência global apontada por pesquisadores da USP
30/11/2025 às 12h22
 - Atualizado há 8 meses
FOTO: Reprodução Agência Brasil

O consumo de alimentos ultraprocessados mais que dobrou entre os brasileiros desde os anos 1980, passando de 10% para 23% da alimentação total. O dado faz parte de uma série de artigos publicados nesta terça-feira (18) na revista The Lancet, reunindo o trabalho de mais de 40 cientistas liderados por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). A análise reforça um alerta mundial: esses produtos vêm ganhando espaço nas dietas de praticamente todos os países.

O levantamento avaliou 93 nações e mostra que o avanço dos ultraprocessados ocorreu em 91 delas, com exceção do Reino Unido, onde o índice se manteve estável em 50%. Nos Estados Unidos, líder do ranking, mais de 60% da dieta já é composta por esse tipo de produto industrializado.

Segundo o pesquisador Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP) e coordenador da série, o fenômeno não é espontâneo, mas resultado direto da atuação das grandes corporações alimentícias. “Essa mudança na forma de se alimentar é impulsionada por empresas globais, que obtêm lucros extraordinários com ultraprocessados, apoiadas por estratégias de marketing e lobby político”, afirma.

Tendência global

O estudo mostra que, nas últimas três décadas, o consumo triplicou em países como Espanha e Coreia do Sul, e segue em crescimento acelerado em economias emergentes, como a China, onde o índice saltou de 3,5% para 10,4%. Na Argentina, o avanço foi mais moderado, mas passou de 19% para 29%.

A pesquisa também revela que o padrão se repete dentro de cada país: primeiro os ultraprocessados se popularizam entre pessoas de maior renda e, depois, se expandem para outras camadas sociais. No entanto, questões culturais podem frear esse movimento. Itália e Grécia, por exemplo, permanecem abaixo de 25%, mesmo com alto poder aquisitivo.

Impacto na saúde

A expansão dos ultraprocessados acompanha o crescimento global de doenças crônicas. A série revisou 104 estudos de longo prazo e 92 deles apontaram maior risco para enfermidades como obesidade, diabetes tipo 2, câncer colorretal, doenças cardiovasculares e inflamações intestinais.

As dietas ricas nesses produtos estão associadas a maior ingestão calórica, pior qualidade nutricional e exposição a aditivos e substâncias químicas.

Para os autores, a substituição de alimentos tradicionais por produtos ultraprocessados se tornou um dos principais fatores por trás da epidemia mundial de doenças relacionadas à alimentação.

Afinal, o que são ultraprocessados?

A classificação Nova, criada em 2009 por pesquisadores brasileiros, divide os alimentos em quatro grupos:

In natura ou minimamente processados: frutas, legumes, carnes, peixes, grãos embalados.

Ingredientes processados: açúcar, sal, óleos e outros usados em preparações.

Processados: alimentos básicos acrescidos de ingredientes do grupo 2, como legumes enlatados, pães simples, queijos, macarrão e sucos 100% fruta.

Ultraprocessados: produtos formulados industrialmente com ingredientes baratos, aditivos, aromatizantes e processos que os tornam muito palatáveis e duráveis. Exemplos: refrigerantes, biscoitos recheados, macarrão instantâneo, salgadinhos e iogurtes saborizados.

O objetivo da classificação é ajudar governos e consumidores a entender como o processamento afeta a saúde e orientar políticas públicas, como o Guia Alimentar da População Brasileira, que já adota o método.

Recomendações e políticas públicas

Os pesquisadores sugerem medidas globais para frear o avanço dos ultraprocessados. Entre elas: rotulagem clara sobre aditivos, corantes e aromatizantes; proibição desses produtos em escolas e hospitais; restrições à publicidade, sobretudo infantil; sobretaxação de itens ultraprocessados para financiar alimentos frescos; ampliação do acesso a alimentos in natura, especialmente para famílias de baixa renda.

O Brasil aparece como exemplo positivo por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que já reduz a presença desses produtos nas escolas e, a partir do próximo ano, prevê que 90% da merenda seja composta por alimentos frescos ou minimamente processados.

Responsabilidade das corporações

A série ressalta que o aumento do consumo não é culpa individual, mas consequência direta de estratégias corporativas globais. Com vendas anuais de US$ 1,9 trilhão, os ultraprocessados lideram a lucratividade da indústria alimentícia.

Segundo os autores, esses lucros alimentam o poder político e econômico dessas empresas, que moldam hábitos de consumo em escala mundial. “É urgente agir para restaurar e promover dietas baseadas em alimentos integrais”, concluem.

FONTE: Agência Brasil

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