
LUTO inevitável: superando a perda
Há um entendimento entre o viver e o morrer:
“ Não, não, a morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver”- Rubem Alves
Encarar a morte de entes queridos sempre remete a algo doloroso, principalmente quando se está diante de uma partida inesperada. Recentemente, a população de Santa Maria (RS) foi entregue ao luto devido à morte de mais de 230 jovens no incêndio da boate Kiss. Fatos como esse provocam revolta e comoção pública. O Brasil chorou. A repercussão ultrapassou fronteiras e a notícia triste viajou pelo mundo. Vidas perdidas, familiares desamparados e sonhos abafados pelos gritos de desespero. No entanto, como encarar o luto? Fase esta imprescindível para a retomada da vida.
O luto e suas diferentes reações
Há duas possibilidades de reações quando se perde um ente querido. A primeira se dá através de um esgotamento de recursos para se resgatar a pessoa de uma doença em fase terminal. Por mais dolorosa que ela possa aparentar, o sofrimento é recompensado pela conformação, seguido pela aceitação, uma vez que desde o diagnóstico de uma moléstia grave até o decorrer do avanço da mesma já houve um tempo de preparo para o fim iminente. O luto é transportado para uma saudade profunda, de acordo com a falta diária e a mudança na rotina.
A perda inesperada e acidental representa uma agonia, um choque, aliados a um sentimento de revolta. Não houve uma fase inicial de conformação da morte. O luto em si exige um tempo maior para se elaborar. Os enlutados passam a interrogar “e se ele não estivesse naquele lugar?” ou “e se ele não tivesse se atrasado?”. Possibilidades nulas, posto que o fato já aconteceu e não há reparação. Trabalhar a perda em si pode durar anos ou nunca cessar o sofrimento, é a chamada NEGAÇÃO. As fases se sucedem, normalmente, por negação, dando espaço à revolta, a posterior barganha, a possível depressão e, por fim, a aceitação.
No caso de Santa Maria, o clamor público é uma resposta ao chamado Luto Coletivo. Existe uma projeção, como se aquela situação pudesse acontecer com qualquer um. Representa um mecanismo de defesa, já que as pessoas têm por hábito projetar em outrem a sua incapacidade, o seu medo. Diante disso, quando se deparam com uma tragédia, percebem a sua real fragilidade.
As fases do Luto
Inexiste uma forma de se pular o processo do LUTO, há reações psíquicas, as quais os enlutados comprovadamente passam. As fases não acontecem necessariamente na mesma ordem e são sentidas de formas variadas em diferentes pessoas. No entanto, existem as que são consideradas representativas, suscetíveis à maioria dos enlutados.
Segundo Bowlby (1985), em sua obraPerda: Tristeza e Depressão,o luto é constituído de quatro fases:
- Fase de choque e entorpecimento;
- Fase de desejo e busca da figura perdida;
- Fase de desorganização e desespero;
- Fase de maior ou menor grau de organização: aceitação e retomada da vida.
Não existe uma marcação temporal determinada para se vivenciar o luto. Ele pode durar uma semana, um mês, vários meses, anos ou, até mesmo, nunca terminar. O tempo dependerá da capacidade íntima de enfrentamento de cada um.
De acordo com a psicóloga Talita Capareli Estrela, “somos preparados para a vida, para as conquistas, para lutar na direção daquilo que chamamos de acreditar. Quantas coisas acreditamos, quantos sonhos agregamos… Precisamos sim dessa referência, afinal estamos vivos, o que seria de nós se desistíssemos? No entanto, não somos preparados para as perdas”.
Como superar?
Ao transportar o caso para o incêndio da boate em Santa Maria (RS) – o luto pela partida de um filho jovem, como já foi dito, é considerado um dos mais dolorosos e difíceis de se superar, por se tratar de uma perda repentina e prematura. É nesse momento que uma ajuda profissional pode ser essencial, a fim de não desencadear quadros somáticos como depressão, anorexia, entre outros.
Não há uma cartilha de vida que ensine como enfrentar a morte, como superar o luto. A cura da ferida é lenta, mas existe. Com o tempo, a pessoa recorre às suas próprias ferramentas de superação e reaprende a viver.
“A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos” –Pablo Picasso
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